Parece-me inevitável.
Caía uma fina e incessante garoa. Meus olhos percorriam toda a vastidão por trás dos fios de grama queimados com a curiosidade de um garoto. Eu salivava de emoção. Meu coração saltou-me à boca como no primeiro encontro. Eu sabia que o trajeto, por mais difícil que fosse, me faria estar mais perto da verdade que procuro. Era tudo dourado, o campo queimado brilhava apesar do céu nublado. Minha ínfima existência me trazia próximo do que eu procurava. Dimensão especular da minha pessoalidade, eu me via projetado em cada treliça ali destruída. Cada fragmento de parede consumida pelo tempo fazia entender-me por completo. Os sapatos molhados teimavam em pisar sobre a grama alta. Havia mais a se descobrir do que a materialidade… Essas coisas indizíveis, essas mãos pairando sobre as cabeças imaginárias de incontáveis amantes: coito entre o ser e o nada. Reduzir-se a nada é um caminho notoriamente inevitável no mundo das ruínas, posto que o espelho reflete o que não existe. E aí sentar-se sobre um muro e deixar a água cair sobre o rosto não é uma escolha, mas parte do único processo natural ao homem. O auto-conhecimento, este flagelo impensável de qualidade unicamente humana só é possível com o contato do ser e seu estado mais bruto. Jogar-se sobre a grama seca, alta, queimada, não foi uma escolha. O campo dourado escondia parte de mim, e eu sabia disso.
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